Diário de confinamento: 'Escola, só no ano que vem'

Isso representaria mais de 8 milhões de estudantes em casa; haja bolo, brincadeira e chá de camomila

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #35 – Barcelona – Sexta, 17 de abril. Cena: buscando receita de “bolo diet light sem glúten vegan triste” para acalmar os ânimos, mas nem tanto.

Uma notícia solta do dia pra enriquecer nossas reflexões existenciais: o consumo de farinha e fermento segue disparando na Espanha.

Na verdade verdadeira, a venda total de farinha caiu, porque muitos grandes compradores, como restaurantes e padarias, fecharam suas portas. Mas, ao que parece, o artigo é sucesso absoluto entre as pessoas confinadas. Todo mundo enchendo a cara de bolo e pizza (imagino) por 1. entretenimento doméstico, 2. endorfinas alimentícias ou 3. (vide 2) ansiedade.

Criança bate palmas na varanda de sua casa em Barcelona em homenagem aos profissionais de saúde
Criança bate palmas na varanda de sua casa em Barcelona em homenagem aos profissionais de saúde - Nacho Doce - 11.abr.20/Reuters

A sociedade espanhola de obesidade (Seedo) estima que as crianças do país vão engordar 5% de seu peso durante o lockdown devido à falta de exercício e à alimentação potencialmente menos saudável e regrada.

O confinamento infantil na Espanha é o mais estrito da Europa, mais até do que na Itália ou França, países com altos índices de contágios, onde crianças podem sair, desde que acompanhadas de um adulto. Aqui não tem boi, não tem boiada, não tem parquinho nem areia pra criançada (rimou, afe maria).

Nesta semana, além do mais, as primeiras conclusões de um informe encomendado pelo governo à associação espanhola de pediatria (Aeped) já sinalizam que provavelmente não haverá volta às aulas até setembro (o ano letivo termina em junho e começa em meados de setembro), numa perspectiva parecida com a da Itália.

Isso representaria mais de 8 milhões de estudantes em casa por uns cinco meses. Haja bolo, brincadeira e chá de camomila.

A ideia é que exames e avaliações de final de curso sejam realizados a distância, e mesmo a volta no segundo semestre aconteça de maneira gradual e escalonada, combinando aulas presenciais com recursos online.

Segundo a Aeped, retomar as aulas presenciais no momento atual e com as regras de distanciamento social vigentes demandaria uma logística algo surreal e pouco viável —escolas, institutos e universidades teriam, por exemplo, que diminuir a lotação das classes em até dois terços e criar diferentes turnos pra dar conta das turmas.

Enquanto isso, outros países europeus como Alemanha, França e Noruega planejam a volta parcial ou total às aulas para final de abril ou começo de maio. A Dinamarca já reabriu as escolas primárias. A Suécia, que soma pouco mais de 13 mil casos e 1.400 mortes desde o princípio da crise, nem chegou a fechar suas instituições escolares.

Nesses países, o argumento principal é diferente do espanhol e privilegia duas coisas: a remediação dos efeitos psicossociais do isolamento prolongado em crianças e adolescentes e a criação de condições para que os pais possam pouco a pouco voltar ao trabalho.

A questão escolar na Espanha, basicamente, acompanhará o compasso do desconfinamento geral. Nesta sexta (17), a ministra do Trabalho, Yolanda Díaz, já anunciou que a retomada das atividades econômicas acontecerá em pelo menos duas grandes etapas: os principais setores produtivos até o verão e o resto (um vasto resto) até o fim do ano —por enquanto.

Entre os últimos a ressuscitar estariam todas as atividades relacionadas à cultura (ora, ora, que novidade), ao turismo e ao lazer (restaurantes, bares etc). Uma tremenda duma gordíssima elefantíssima questão pra um país que vive desbragadamente de turismo (o setor corresponde a uma média de 11% do PIB).

Segundo a World Tourism Organization, a Espanha é o segundo país mais visitado do mundo, atrás apenas da França. Foram quase 84 milhões de turistas em 2019, um afluxo de visitantes que só cresce (crescia...) há pelo menos sete anos, sem sequer intimidar-se com o atentado terrorista de 2017.

O setor emprega muita mão de obra temporária. Tanta que o país ostenta a maior concentração de trabalhadores temporários da Europa, com 27% do total —o dobro da média comunitária. Mais de 90% dos contratos de trabalho assinados em 2019 na Espanha eram de curta duração.

Acordos para “dar amortização social a esse processo”, como definiu Díaz, serão, espera-se, negociados entre sindicatos e representantes do setor durante as rondas para o pacto de reconstrução a partir da semana que vem.

Pra acalmar os ânimos, o negócio é buscar alguma receita clássica de doce espanhol. Uma crema catalana (que parece uma crème brûlée), uma torta de Santiago (um tijolo de amêndoas, açúcar e ovo, cuja existência data pelo menos do século 16), ou uma ensaimada ou torta de Txantxigorri, tradicionalmente elaboradas com banha de porco. Ou um tradicional bolo de fubá, que eu prefiro. Vamos precisar.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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