Diário de confinamento: 'A cultura de bar na Espanha é expressiva'

Estabelecimentos voltam a funcionar com muitas restrições nesta segunda (8)

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #86 – Domingo, 7 de junho. Cena: "Bares, qué lugares / tan gratos para conversar / no hay como el calor / del amor en un bar" (Gabinete Caligari, "El calor del amor en un bar", 1986).

O bar-restaurante Els Quatre Gats (Os Quatro Gatos), em Barcelona, é um tesouro da cidade, clássico ressuscitado da art nouveau e "ple" (pleno, repleto) de história.

Por ali entornou muitos cafés e outras beberagens a nata da boemia catalã, de Ramón Casas a Joan Miró e Picasso, então um jovenzito de seus 17-19 anos.

Eram os anos finais do século 19. Picasso, encorajado pelo então dono do café, Pere Romeu, que tinha trabalhado no famoso Le Chat Noir de Paris, criou cartazes para anunciar atrações como o teatro de marionetes e o cabaré, e até desenhou o menu do dia, ainda hoje vivo na comunicação gráfica do lugar.

Por sinal, aquela cena no restaurante do filme "Vicky Cristina Barcelona", em que o garboso Javier Bardem se levanta de sua mesa pra chamar as turistas pra uma voltinha de avião até Oviedo, foi gravada lá, no salão principal.

Scarlett tem vinho na mão e, no prato, um indefectível “pan tumaca” (pão com tomate), item indispensável em um bom “àpat” (refeição) catalão.

"Quatre gats" é uma expressão catalã que significa mais ou menos o nosso "gatos pingados". Tipo: quase ninguém.

É mais ou menos assim que reabrirão os bares na nova fase 2 na qual entrará metade do país nesta segunda-feira (8): com os terraços ao ar livre mais cheios, e os salões —se for pra seguir as restrições de 30% a 40% da lotação em espaços fechados, com distanciamento de 2 metros e medidas de proteção individuais—, muito mais vazios que o usual.

Os balcões estarão proibidos, e só se poderá consumir nas mesas.

Mulher sozinha na mesa de um bar em San Sebastian, na Espanha - Ander Gillenea - 25.mai.20/AFP

O espanhol tradicionalmente gosta de se avolumar em balcões de "tascas" e "bodegas", cotovelo-com-cotovelo, entre cañas, vinhos e tapas de frutos do mar, embutidos e queijos. Uma maravilha, embora um pouco aperreante.

Bares como o famoso Xampanyeria, na Barceloneta, são (eram) quase um esporte olímpico: 1. chega lá e, se conseguir entrar; 2. encontrar uma nesga de solo pra chamar de sua; 3. pedir uma cava rosada; e 4. tentar equilibrar a diminuta taça de colarinho estreito enquanto belisca um dos sanduíches ou porções, sem deixar cair por algum safanão dos abundantes transeuntes.

Pois cenas como essas, clássicas tanto no centro turístico da cidade quanto em bares de bairros boêmios como Gràcia, talvez demorem muito a se repetir.

A cultura de bar na Espanha é expressiva: são mais de 180 mil em todo o país, ou um para cada 260 habitantes —a maior concentração per capita do mundo.

O país também entra no ranking absoluto de mais-bares-por-metrópole, com Madri em 4º lugar (865 bares, segundo dados de 2019) e Barcelona em 5º (733) —Londres, Tóquio e Nova York são os três primeiros.

Os dados impressionam, mas não podem esconder uma realidade pós-coronavírus: estima-se que cerca de 15% dos 270 mil estabelecimentos dedicados a comida e bebida (aka bares e restaurantes) não voltarão a abrir as portas depois da pandemia.

Isso poderia significar 40 mil negócios prejudicados e mais de 200 mil empregos perdidos. Até agora, 15 mil já fecharam definitivamente por conta dos prejuízos da pandemia.

O encolhimento do setor de bares segue a tendência da última década, quando 20 mil estabelecimentos fecharam as portas no país; tendência contrária à dos restaurantes espanhóis, cujo setor cresceu 10% na última década.

Mas ambos, constituídos majoritariamente de negócios familiares, vão sofrer em 2020 com as muitas restrições do tal Novo Normal.

Nesta segunda, depois de quase 3 meses, também voltam a abrir em Barcelona e Madri os estabelecimentos culturais como cinema, teatro e auditórios, com 30% da capacidade e hora marcada.

Alguns museus, incluindo o Picasso, em Barcelona, já anunciaram a reabertura entre esta semana e a semana que vem. E os espetáculos poderão acontecer na fase 2 com 50 pessoas no máximo (em espaços fechados) e até 400 ao ar livre, desde que mantidas as distâncias e medidas de segurança.

O Els Quatre Gats segue, por enquanto, fechado, mas já vai preparando o novo cardápio para a reabertura.

Como diz a canção em pasodoble, tipo uma marchinha militar-roquenrol à la Noel, que nos tempos correntes pode soar anacrônica: "Jefe, no se queje / y sirva otra copita más / no hay como el calor / del amor en un bar...".

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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