Diário de Confinamento: 'O elaborado ritual do passeio em família'

Discussões sobre o desconfinamento infantil são um laboratório para outras questões que nos esperam

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #39 – Terça, 21 de abril. Cena: já falei que tá chovendo?

Enquanto a gente aqui em casa, em Barcelona, prepara um kit com carnê de identidade (onde figura o endereço domiciliar), carta de justificativa do trabalho e traje de astronauta cada vez que sai à rua, fico vendo meio abobada as imagens de gente blasé fazendo cooper (essa palavra, vocês ainda usam?) nas ruas algo apinhadas de Paris e Londres.

Por um lado, é verdade, a Espanha lidera o ranking europeu (oficial) de contágios, superando a Itália, embora esta ainda seja a primeira em número absoluto de mortes.

Como um átomo componente do organismo social, eu me inclino a aquiescer em relação às medidas mais drásticas e prolongadas do confinamento espanhol.

Aniol Yauci/Divulgação

Mas eu me pergunto, e essa dúvida talvez seja tão velha quando um Homo neanderthalensis: até que ponto podemos confiar na responsabilidade, na solidariedade e, como definiu nesta terça (21) a ministra da Fazenda e porta-voz do governo, María Jesús Montero, no "bom senso" coletivo para manter o pacto de isolamento social?

O governo espanhol não esperou pra ver e, desde o início do estado de alarme, em meados de março, estipulou multas e punições salgadas para os desobedientes do confinamento. Até agora, foram registradas mais de 650 mil denúncias em todo o país.

As regras de confinamento se estendem à população infantil, que, como os adultos, está há cinco semanas proibida de sair às ruas sem justificativa —uma norma ainda mais rígida que a italiana, onde crianças podem sair acompanhadas.

A medida será finalmente abrandada a partir da semana que vem.

Conforme anunciado nesta terça, a partir de segunda (27), menores de 14 anos —6,8 milhões em todo o país— poderão sair com os pais ou responsáveis, acompanhando-os em andanças já permitidas, como ir ao mercado ou à farmácia.

"Trabalharemos para tentar prever todos os cenários possíveis, mas há algo que não pode faltar nunca: o bom senso", disse Montero, em referência à nova medida.

Aí começam as divergências. Pais reclamam que é pouco. Diferentes comunidades autônomas propõem sua própria interpretação do caso e levantam dúvidas e ideias distintas.

Uma das críticas à medida surgiu na entrevista coletiva desta terça: como assim, liberar a saída de crianças, mas só em ambientes fechados como supermercados? Não é um tiro no pé?

“Os supermercados estão muito controlados para que não haja aglomerações", argumentou a porta-voz, acrescentando que um guia será elaborado nos próximos dias com mais detalhes, inclusive levando em consideração a possibilidade de ampliar as primeiras iniciativas para “outro tipo de atividade mais desejada pelo conjunto das famílias".

Esse "outro tipo de atividade" = sair porque sim, pra dar um bom e velho passeio, respeitando o distanciamento social.

Na Catalunha, o plano divulgado no último domingo (antes do anúncio nacional desta terça) para aplicar a nova medida é bastante detalhado e propunha inclusive faixas horárias para diferentes idades: menores de seis anos sairiam primeiro, entre 12h e 14h, e assim por diante. Passeios, sempre num raio de 1 quilômetro de distância de casa.

Além disso, o governo catalão, que no domingo voltou a demandar mais autonomia para empreender o “desconfinamento assimétrico”, destaca o que se poderia ou não fazer nesses breves passeios. Por exemplo: jardins públicos estão permitidos, mas parquinhos, não; não se poderá comer ou beber na rua nem utilizar equipamentos esportivos e quadras de esporte; e tampouco se poderá locomover por meio de transporte, seja público ou particular.

E se pintar um “encontro casual” com conhecidos na rua durante as andanças? O "bom senso" sugerido estipula que só se troquem dez minutos de prosa, e sempre a 2 metros de distância. Máscaras serão obrigatórias a partir dos três anos de idade. Ah: e, antes de sair, todos da família teriam que medir a temperatura.

Tô achando até fácil o meu ritual de ir ao mercado.

As discussões sobre o desconfinamento gradual dos pequenos são um laboratório para outras questões que nos esperam na esquina. Por exemplo, que medidas adotar diante do desconfinamento laboral dos pais, uma vez que as crianças não voltarão às escolas até setembro?

Nesta terça, foram também anunciadas medidas econômicas complementares. Entre elas, a renovação do “caráter preferencial” de trabalho remoto por mais dois meses, indicado pela primeira vez no decreto de um mês atrás.

No fim, só sei duas coisas nexte exato momento: 1. uma propaganda de água tônica mostrando gente #emcasa feliz bebendo e fazendo videochamadas está me fazendo sonhar com gim tônica; e 2. segue chovendo em Barcelona. A cântaros. Ou, como se diz aqui: “em abril, águas mil”.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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