Diário de confinamento: 'Queremos pedir que você busque outra casa'

Noticiário mostra hostilidade por parte de vizinhos a profissionais que seguem trabalhando

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #32 – Barcelona – Terça, 14 de abril. Cena: Tudo cá cá cá, na fé fé fé / No bu bu li li, no bu bu li lindo....

Aqui, 32° dia de confinamento domiciliar, o horário comercial da tevê segue quase como sempre, com aquele voluptuoso desfile monocórdio, amortecedor-de-sentidos de Coisas a Consumir, Marcas a Amar, Crise a Esquecer etc etc. Vida mantequilla.

Exceto por um detalhe: todos os cenários agora levam ao lar. As campanhas —pode ser de loja de móveis, carro, banco, caldo de galinha, não importa— migraram quase todas para a vida indoors, mostram gente nas janelas em coreografia jovial de acenos solidários, as famílias em convívio fraternal, os casais acucurraditos nos sofás.

Enfim, publicidade. Sempre mostrando a galinha mais dourada, o texto mais lacrimoso, a gente mais feliz. Em casa.

Espanhóis dançam em varandas durante a quarentena do coronavírus em Madri, na Espanha
Espanhóis dançam em varandas durante a quarentena do coronavírus em Madri, na Espanha - Gabriel Bouys - 12.abr.20/AFP

As mensagens agora terminam com um moralmente obrigatório #quédateencasa ou 'nós ficamos em casa', e com qualquer outro gancho visual-textual que possa estabelecer um vínculo, uma conexão, uma ponte com o corazón algo cansado do público confinado.

Os números de mortos vão se estabilizando, e a volta parcial ao trabalho nesta semana dá a ilusão de que o pior já passou.

Epidemiologistas e analistas vários, porém, vão alertando para a necessidade de manter medidas de segurança, sob pena de vivermos uma segunda onda de contágios. O problema mais urgente é disponibilizar mais testes. Porque o número oficial de contágios é uma lenda urbana.

A solidariedade se vê pelos números, já que a maioria de nós ainda não pode sair às ruas. Uma olhada básica em gofundme, página de crowdfunding, me surpreende: não são poucos os projetos sociais de apoio à crise que completaram suas metas de doações ou, inclusive, superaram.

Os que mais abundam e têm mais ibope são os projetos de apoio direto a hospitais, seja com material sanitário ou ajuda financeira às equipes e cuidado dos pacientes. Outros, como projetos de pesquisa e sociais, têm scores variados. E há ainda propostas como construção de respiradores ou um fundo de emergência para trabalhadoras sexuais, lançado por um coletivo que reúne diferentes cidades (14.759 euros doados, dos 12 mil euros de meta inicial, o que equivale a R$ 84 mil, da meta de pouco mais de R$ 68 mil).

Do outro lado do coração español, o noticiário do dia mostra diferentes exemplos de hostilidade por parte de vizinhos a profissionais que seguem trabalhando durante a crise, como enfermeiros, médicos e funcionários de supermercados.

Uma caixa de supermercado de Cartagena teve a seguinte mensagem anônima colada em sua porta: “queremos pedir a você pelo bem de todos que busque outra casa enquanto isso dure (…). Não queremos riscos. Gracias”. Ela escreveu de volta: “menos aplausos às 20h e um pouco mais de empatia pelas pessoas que temos que trabalhar e temos família”. Outra médica amanheceu com a porta de casa “pichada” de água sanitária e sabão.

Alguns profissionais de saúde contaminados com coronavírus durante o trabalho desabafam em rede nacional: rejeitados pelos vizinhos ou pelos próprios companheiros de apartamento, são obrigados a dormir em carros ou buscar algum dos hotéis especiais realocados para a crise.

São exceções, mas doem na fábula imaculada de solidariedade que a nação (e a propaganda) está arduamente tentando construir.

Assim como dói ver as imagens reiteradas do ex-premiê Mariano Rajoy, destituído em 2018 após um escândalo de corrupção envolvendo seu partido, o PP (Partido Popular, atualmente no comando da oposição), fazendo jogging na rua vazia, do lado de sua casa avaliada em 1,5 milhão de euros (R$ 5,7 mi) no bairro ultraburguês de Aravaca, em Madri, com seus tênis azul royal e reloginho conta-calorias. Como se não fosse com ele. Como se não fosse com todos nós.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


DIÁRIO DE CONFINAMENTO

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