Diário de confinamento: 'As novas regras do rolê'

Neste sábado, os espanhóis voltam a ocupar as ruas, com regras estritas

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #49 – Sexta, 1º de maio. Cena: hoje, o maior hospital de campanha de Madri fechou as portas, depois de haver atendido 4.000 pacientes com coronavírus.

"Tem que fazer um mestrado pra poder entender as regras!!!", queixou-se meu compi de apartamento.

Examinávamos (no sofá, ponto de encontro número 1 da casa nos últimos quase 50 dias) a tabela divulgada pelo governo espanhol para explicar como vai ser o nosso sábado.

Depois da rebordosa de um Dia do Trabalho sem Trabalho e sem Manifestação, a nação espanhola vai poder sair às ruas pela primeira vez em quase dois meses de isolamento domiciliar.

Homem com máscara caminha com cachorro em Barcelona
Homem com máscara caminha com cachorro em Barcelona - Nacho Doce/Reuters

A julgar pelo que aconteceu no último domingo, quando foram liberados os passeios em família com crianças, tô blastersegura de que teremos um efeito manada. Elefantes contentes pulando no rio depois de 1.480.957.018 anos em cativeiro. Splash, splash.

A partir desta sexta, Barcelona abre 70 parques. Também fechará 44 ruas todos os dias entre 9h e 21h para uso exclusivo de pedestres. E nada de botar o pezinho inquieto na areia: as praias ficam proibidas até segunda ordem (literalmente) —quero só ver.

O fechamento de ruas se estenderá ao menos pelos próximos 15 dias, ao final dos quais serão avaliados seus impactos e benefícios.

A medida tem sua importância no combate a aglomerações. No último domingo, quando o governo espanhol permitiu a saída de famílias com crianças de até 14 anos para um breve passeio, o que se viu em alguns pontos urbanos centrais como praças e avenidas foi uma amontoação louca de gente.

Todo mundo quis sair e se reunir depois de um longo confinamento, e em alguns lugares não havia espaço para manter a distância recomendada de 1,5 metro a 2 metros.

Barcelona é uma cidade pedestre-friendly. Bem sinalizada e medianamente arborizada, tem vários boulevards e passeios.

Ainda assim, talvez não sejam suficientes pra acomodar a tal da "nova normalidade", quando todo mundo vai ter que circular com máscaras e distanciamento social, tipo extras incautos dum videoclipe distópico do Pink Floyd.

Por isso, a prefeitura de Barcelona estuda também ampliar calçadas e ciclovias, além das sacadas e dos espaços ao ar livre de bares e restaurantes, que terão que reabrir em breve com apenas 1/3 de suas capacidades.

Como contraponto, acho decente acrescentar que tudo seria um pouco mais fácil se as pessoas decidissem não ir em massa ao centro. As ruas do meu bairro, por exemplo, andam to-tal-men-te tranquilas.

Voltando à tabelinha cheia de cores e pictogramas do desconfinamento.

A partir deste sábado (2), nós (aka 14 a 69 anos) poderemos sair pra dar um passeio a até 1 quilômetro de casa com até uma pessoa "convivente" entre 6h e 10h e 20h e 23h, mesmo horário reservado para a prática de "esporte não profissional (...) dentro dos limites do município onde se vive"; os maiores de 70 ("ou pessoas dependentes com cuidador") poderão ficar com o período entre 10h e 12h e 19h e 20h; e os menores de 14 anos poderão passear com um pai ou responsável entre 12h e 19h.

Ufa.

"Ah, então isso significa que a gente não pode ir andando até a praia, mas pode ir correndo?" —meu compi again. Capcioso. Pergunto se ele tá pensando em sair correndo amanhã pra fazer o percurso de 4 quilômetros que nos separa do mar.

Será que depois de tanta sessão de kickboxing pelo iutubi em casa teríamos essa capacidade de correr ou pedalar até a praia —ou essa cara-de-pau de aproveitar a ambiguidade das normas?

Alguns amigos me consideram muito careta ou estrita. Outros entendem as restrições como eu: se a gente quer chegar melhor e mais bonitamente à tal imunidade de rebanho, ora-ora, o rebanho tem que cooperar.

Seguindo a lógica do comportamento de manada, quanto mais gente estiver dentro das regras, dando o exemplo, mais gente tenderá a se manter dentro das regras.

Um raciocínio que deixa de ser óbvio quando ouço uma amiga dizer que vai atravessar a cidade amanhã pra visitar a irmã, ou quando vejo amigos se encontrando na rua "pra comprar pão", ou avisto uma família de pais e tios e sei lá que adidos mais saindo em grupo com uma única criança (aqui, recomenda-se até um adulto por família).

Aí, entra em jogo o contrário: quanto menos gente assume co-responsabilidades coletivas, menos... —etcétera.

A Catalunha é a segunda comunidade autônoma com mais casos e mortes na Espanha, depois de Madri.

Nesta semana, o diretor do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias, Francisco Simón, disse que as duas regiões têm "um ponto de partida mais complicado" que outros territórios, o que pode fazer com que "se retarde um pouco mais a tomada de decisões".

Leio as recomendações de um grupo de psicólogos de médicos de Barcelona. O papo é direcionado aos profissionais de saúde, mas me servem: "Faça pequenas pausas ao largo do dia, aceite as emoções que vão surgindo e reconheça o valor da sua atuação". Feliz sábado.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui: https://soundcloud.com/kinglolaofficial

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