Diário de confinamento: 'Passando de fase'

Regiões devem justificar, semalmente, seu avanço ou não no jogo de quatro etapas da desescalada

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #61 – Quarta, 13 de maio. Cena: Dizem que o Gil esteve em Formentera nos anos 1960, e que daí e do exílio europeu saiu a lindeuza “Ladeira da Preguiça”, a pedido de Elis.

A médica colombiana fala comigo com uma voz doce e pausada. "Uma cicatriz pode demorar até dez anos pra se estabilizar", está me explicando, com genuína boa vontade. Enquanto besunta meu peito (operado de um câncer de mama) de gel e passa a maquininha do ultrassom.

Ela, cujo rosto talvez eu nunca venha a conhecer (quer dizer, mais do que ozoinho sobre a máscara), comenta que tem um amigo de "Minas de Rrrerais", mas que meu sotaque é diferente, "parece de filme".

Garçonete com máscara e luvas serve clientes em Palma, na ilha espanhola de Maiorca
Garçonete com máscara e luvas serve clientes em Palma, na ilha espanhola de Maiorca - Jaime Reina - 11.mai.20/AFP

Ah, o domínio sotaquístico paulistano. Eu às vezes gostaria de me ouvir falando sem nunca ter me ouvido falar pra ver como eu falo em espanhol. Entiendes.

Nesta quarta, os governos regionais começam a entregar ao Ministério da Saúde seus relatórios sobre o status epidemiológico dos territórios.

Explicando: como um exame sanitário, toda semana até o fim do desconfinamento (previsto para final de junho) cada comunidade autônoma tem que apresentar dados e argumentos que justifiquem seu avanço ou não no jogo de quatro etapas da desescalada. Cada etapa pode se prolongar por até duas semanas.

Atualmente, apenas 50% do país se encontram na fase 1, contra outra metade ainda na fase zero —incluindo Barcelona e Madri, as principais cidades atingidas pelo vírus.

No caso da Catalunha, a segunda comunidade com maior concentração de contágios e mortos do país, o relatório que será entregue até o fim desta semana solicitará que três novas áreas sanitárias entrem na fase 1 a partir da próxima segunda-feira.

Com isso, passariam a ser no total cinco áreas em fase 1, faltando outras quatro.

As áreas sanitárias são definidas pelo Departamento de Saúde catalão e não seguem necessariamente fronteiras geopolíticas.

Barcelona e sua zona metropolitana, que acumulam quase 70% dos casos e 75% das mortes por coronavírus de toda a Catalunha, seguirão na fase zero por mais alguns dias.

Entre outros motivos, a incidência de casos acumulados na última quinzena ainda requer atenção —é a segunda maior taxa da Espanha, com mais de 50 casos por 100 mil habitantes, atrás apenas de Castilla y León.

É possível que alguns pouquíssimos territórios espanhóis possam passar diretamente à fase 2 na semana que vem. É o caso da bela ilha de Formentera, a menor das ilhas baleares, que desde semana passada já desfruta a fase 1.

Isso significa terraços de bares abertos (com 50% de ocupação), comércio sem hora marcada (com 30% da capacidade máxima) e reabertura de "lugares de culto" (onde podem se reunir até 15 pessoas —o que inclui rituais como funerais, que durante a quarentena sofreram muitas restrições).

Pra mim, que vivo aqui na Barcelona Zona Zero, o mais desejado é poder encontrar os amigos novamente. Como já se pode fazer lá na ilha, em grupos de até dez pessoas, embora (diz a norma) sem abraços. Ainda. "Formentera é uma ilha / onde se chega de barco, mãeeee"....

“Músicas para quarentenas” podem ser escutadas aqui.​


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