Diário de confinamento: 'O informe da discórdia'

Relatório sobre Espanha pré-pandemia aponta culpados e vira centro das tensões políticas

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #77 – Sexta, 29 de maio. Cena: Nissan anuncia que vai fechar as portas em Barcelona, demitindo 3.000, e Alcoa faz o mesmo em Lugo; funcionários protestam diante das fábricas, queimando pneus e bloqueando o acesso à cidade.

Eu podia tá matando, eu podia tá roubando, eu podia tá escrevendo meu texto, mas tô olhando receita de bolinho de chuva no Instagram.

Mentira. Estou acompanhando os "rifirrafes" (atritos) do dia (muchos, cada vez mais abundantes e eskalakafróticos).

O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, em entrevista coletiva em Madri
O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, em entrevista coletiva em Madri - Palácio da Moncloa - 30.mar.20/AFP

A tensão política entre esquerdas, direitas e marcianos tem se agigantado em fúria ninja ao quadrado desde que o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, assinou a demissão do chefe da Guarda Civil de Madri, Diego Pérez de los Cobos, no começo desta semana.

Mais exatamente, na calada da noite, já que o telefonema crucial da demissão foi feito no final do último domingo. Bad, bad move.

Até agora, já caíram também os números dois e três da instituição. Motivo: a divulgação de um informe sobre as manifestações do Dia da Mulher, em março, que estaria coalhado de imprecisões e manipulações —aparentemente, fundamentando a tese de que o governo foi inconsequente ao permitir os eventos, já ciente de que vivíamos um momento de alerta sanitário internacional.

Os eventos do 8M na Espanha têm sido utilizados reiteradamente pelos haters como exemplo-gênesis da má gestão da epidemia.

A demissão repentina de Cobos e companhia caiu como uma luva de látex: toca agora escutar discursos apaixonados pedindo a cabeça de Marlaska ou reafirmando o "apoio à nossa polícia", como disse o líder do PP, principal partido da oposição, Pablo Casado.

O informe havia sido encomendado por uma juíza de Madri que investiga o delegado do governo (cargo que representa a administração central em âmbito regional) por prevaricação, ao autorizar não só as passeatas do 8M como —ora vejam— um congresso do partido de ultradireita Vox com 9.000 participantes na mesma data e uma partida de futebol da Liga que reuniu mais de 60 mil pessoas.

Entre os detalhes do relatório que têm sido escrutinados publicamente, há testemunhos distorcidos, citações mutiladas, fontes duvidosas e dados equivocados.

A mídia espanhola comprou a briga, e zilhares de jornais, portais e canais têm publicado investigações e perspectivas sobre diferentes trechos do documento de 81 páginas.

Só pra ficar num dos pontos elementares: segundo o informe, o surto de coronavírus teria sido declarado pela Organização Mundial da Saúde como pandemia em 30 de janeiro. Na realidade, a data correta é 11 de março, três dias antes do decreto do estado de emergência na Espanha.

Enquanto isso, avança a desescalada em todo o país. Ou quase: 70% passam à chamada fase 2 na segunda-feira que vem.

Essa etapa permite reuniões de até 15 pessoas, amplia as faixas horárias para passeios e prática de esportes (reservando três horas preferenciais para os maiores de 70 anos) e permite a reabertura de praias, centros comerciais e áreas fechadas de restaurantes, bares e outros estabelecimentos, com lotação limitada.

Como na fase 1, não se pode sair da província, área sanitária ou ilha onde se vive.

A cidade de Barcelona, como Madri, permanece na fase 1 por mais uma semana. É a única unicazíssima em toda a vasta costa mediterrânea espanhola a não liberar banhos de mar nesta segunda. Guenta corazón.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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