Descrição de chapéu Diário de Confinamento

Diário de confinamento: 'A Nova Normalidade'

'Vai se engendrando uma espécie de consenso sobre as conexões virtuais e a expectativa de que isso acabe'

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #36 – Barcelona – Sábado, 18 de abril. Cena: escolhendo minha #trendymask de tecido com estampa japonesa.

Não sei se já comentei aqui, mas uma de minhas Personas Interiores é de paciente-de-câncer-em-remissão.

O que significa isso? Ora, muitas coisas que não cabem neste texto (mas que comento aqui).

Anyway. Por conta dessa Persona, faço parte de uma rede de voluntários, entidades e grupos de ex-pacientes e percebo, com o avanço do confinamento, uma mudança na qualidade dos comunicados e conversas, mais afinados agora com a perspectiva de uma excepcionalidade coletiva no longo prazo.

Eu vejo mais essas coisas que as redes sociais, confesso.

"O que estamos vivendo não é um parêntese que tenhamos que atravessar o quanto antes para poder retomar nossa vida", diz uma mensagem enviada nesta semana pela psicóloga de uma ONG para pacientes de câncer de mama de Barcelona. "Os dias que estamos vivendo são nossa vida agora."

Ilustração Aniol Yauci/Divulgação

Penso na verdade simples e quase irritantemente óbvia dessas palavras, que poderiam estar emolduradas em uma tela de Instagram com mil coraçõezinhos de internautas.

Agora que estamos há mais de um mês com o gato no telhado, quer dizer, confinados, bombardeados a cada dia por notícias, análises e premonições de que isso vai durar até maio, não, até o fim do verão europeu, não, até o final do ano, não, até 2022 (segundo estudo recente da Universidade Harvard), vai se engendrando uma espécie de consenso interdito sobre a ideia de uma Nova Normalidade, a das conexões virtuais, da ida ao supermercado, da vida pela janela, dos aplausos às 20h, do toque de recolher, das máscaras obrigatórias, dos abraços de longe, da expectativa longínqua de que isso acabe.

Um a um, os castelinhos no ar vão sendo substituídos todos os dias, como se as fábulas sobre o presente e o futuro quase esotéricos que estamos vivendo mundialmente precisassem, elas mesmas, ser mantidas esterilizadas com álcool em gel e repostas como papel higiênico na gôndola do supermercado.

Um dos últimos castelinhos a meio que balançar é a muy propalada ideia —vejam se bate pra vocês— de que o calor freia o vírus.

Um estudo recém-publicado pela agência espanhola de meteorologia acompanhou a variação de temperatura em todas as 17 comunidades autônomas do país ao longo de 14 dias, estabelecendo um vínculo com os novos casos diários de contágio. Conclusão superficial: existe relação estatística.

Maaaaas, como divulgou a academia nacional de ciência dos EUA em comunicado à Casa Branca, recomendando que não se fie no calor pra arrematar epicamente a questão (como vinham afirmando Trump e certos outros), embora haja correlação entre maiores níveis de umidade e temperatura e menos eficácia aparente da transmissão do vírus, países quentes e com altos índices de contágios como Irã e Austrália estão aí pra mostrar que o final não é necessariamente feliz.

Segundo a epidemiologista Margarita del Val, do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), vinculado ao Ministério de Ciência e Inovação, numa epidemia como a que vivemos, é muito mais crucial observar o número de pessoas ainda não-imunizadas ou suscetíveis ao vírus do que a simples variação meteorológica.

Além disso, padrões de disseminação em pandemias anteriores como a da gripe H1N1, em 2009, já demonstraram que o comportamento viral é mais complexo do que o puro antagonismo inverno X verão.

O estudo está em vias de ser aprofundado, incorporando também dados de internações, mortalidade e medidas de contenção de contágios, além de outras informações socioeconômicas regionais.

Essa discussão tem importância estratégica no hemisfério norte, onde estamos rumando para o verão (e, depois, para o frio de novo, quando pode haver nova onda de contágios). Aqui na Espanha, não só pode aportar parâmetros para as políticas de desescalada do confinamento, como também servir para afinar o controle regional da epidemia, definindo áreas de maior risco e necessidade de monitoramento.

Enquanto o calor não chega, uma amiga minha de Marselha, super pródiga em habilidades manuais e com um super jenesequá francês, já está fabricando belas máscaras protetoras (nunca pensei que diria isso) com estampa de flores, listras etc. Inicialmente para amigos, começou a receber pedidos, muitos. Porque a previsão, já vamos vendo, é de que a máscara seja o acessório do verão.

A frase seguinte pode soar de mau gosto em momentos como o que vivemos, mas tem seu "puntito". Foi popularizada por María Isabel, a criança-prodígio que ganhou o Eurovision infantil de 2004 com a canção homônima e é um hino bregapop à liberdade de expressão estilística-fashion: "Antes muerta que sencilla" (antes morta que simples). Com #trendymasks.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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