Diário de confinamento: 'Sobre política e pardais'

Partidos da oposição disseram que não vão participar da reunião para discutir um pacto de reconstrução

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #33 – Barcelona – Quarta, 15 de abril. Cena: sabiam que o pardal é tão social que pode chegar a formar bandos com outros tipos de pássaro?

Escrever pra mim é como um passo no abismo. Ou uma declaração de amor. A estreia no palco.

Bom. É como eu sinto. Mesmo quando é planejada, racional, relatadora dos 317.898 lados de uma questão, a escolha da palavra não deixa de ser um salto (do bêbado e da equilibrista, que não posso parar de pensar no Aldir Blanc e em tanta gente metida em hospital neste exato momento). Um gesto que desencadeia todos os outros, um fio que nos conecta com o sentido.

Por exemplo.

Nesta quarta (15), graças (?) ao vírus, temos um novo inquilino em casa. Só esqueço sua presença a cada três a cinco segundos, intervalo de tempo que ele leva pra retomar o canto a todo fôlego. Canta tão contundentemente que invadiu este texto.

O premiê espanhol Pedro Sanchez
O premiê espanhol Pedro Sánchez participa da primeira sessão do Congresso desde que o estado de emergência foi decretado - Andre Ballesteros/AFP

Foi trasladado com muito cuidado porque se encontrava em estado de choque, depois de ser abandonado em um apartamento no bairro antigamente-proletário de Navas, quando seus dois companheiros —um casal de idosos— foram internados com suspeitas (agora confirmadas) de coronavírus.

Nós o chamamos simplesmente de PIO.

PIO podia ser um cachorro, pra eu poder dar um rolê. Tô brincando. Mais ou menos.

Mas não: ele tá lá, pardalzim freeze-frame numa gaiolinha na varanda.

Eu não gosto de passarinho na gaiola. Mas o bichinho vivia com os pais do meu compi de apartamento, e ficou sozinho quando eles foram hospitalizados, algumas semanas atrás. Agora aqui estamos, entre piados e alpiste (que rima com triste, triste).

Os pais do meu compi tiveram sorte. Mesmo com diabetes e problemas respiratórios e neurodegenerativos prévios, estão recuperados e já deixaram a UTI. Serão transferidos do hospital público em que estão, a dez minutos daqui, para uma clínica adaptada, juntos, com pensão completa e cuidados médicos.

Saúde pública, meus amigos. Um luxo, eu digo ao meu compi, que é catalão. E penso em meu país, meu país…

Esta quarta foi dia de sessão azeda no Congresso. Foi a primeira reunião “de controle” em dois meses. A oposição surrou o governo com críticas —algumas concretas, como foi o caso dos esquerdistas e independentistas Gabriel Rufián (ERC, Esquerda Republicana da Catalunha) e Metxe Aizpurua (EH Bildu), enfocados em levantar questões trabalhistas... e outras francamente raivosas e até, hmm, psicodélicas, num esquema genérico tipo fora-comunistas.

Macarena Olona, do partido de ultramegablasterdireita Vox, acusou o governo de aproveitar a crise "para impor seu modelo totalitário venezuelano"; Teodoro García Egea, secretário-geral do Partido Popular (PP, principal partido de oposição), de "botar a ideologia por cima da saúde dos espanhóis".

Pablo Casado, líder do PP, criticou até a cor da gravata de Sánchez (vermelha, contra a preta de Vox e PP), considerando-a um insulto aos falecidos por coronavírus.

O comentário gerou muitas reações na internet. Alguém escreveu, em resposta a Casado: “Patético. A cor da gravata e o luto vão substituir tudo o que seu partido (no poder até 2018, quando foi destituído por um escândalo de corrupção dentro do próprio PP) recortou em saúde pública”.

Por outro lado, Cayetana Álvarez, outro representante do PP (alternativamente intitulável de “marquesa”, status nobiliário que ostenta por sua origem familiar), chamou o governo à responsabilidade pelo atraso na distribuição de testes rápidos e pediu que se averigue “por que a Espanha é o país com mais mortos por milhão de habitantes; é sua obrigação porque é uma catástrofe e porque ocorreu em seu mandato”.

Sánchez e o vice-presidente, Pablo Iglesias, também alvo de muitas críticas, optaram pelo não confronto, sublinhando que o número de contágios caiu de 35% antes do lockdown para os atuais 3%, o que seria sinal de que as medidas adotadas “estão funcionando”, e voltaram a pedir unidade.

Mau momento. Nesta quinta (16) acontece a primeira reunião importante para dar início às negociações nacionais por um pacto de reconstrução, e alguns partidos da oposição já mandaram o recado de que não vão participar —porque se sentem excluídos desde o início da história.

Infelizmente (penso aqui, enquanto observo PIO comer uma folha de alface e acompanho as notícias do meu querido e pandemônico Brazel), o mimimi político na hora da água na b## não muda muito, nem ao longo do tempo, nem de endereço. Lembrando de novo Aldir, que sempre contava n’O Pasquim seus papos com o avô Aguiar:

"Me lembro que, quando o Café Filho assumiu, vovô sentenciou:

- A política do Brasil de hoje me lembra a sala de espera do dentista: um monte de gente encagaçada esperando a vez.

Duradouras palavras!" (“Rua dos Artistas e Arredores”, Aldir Blanc)

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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