Diário de confinamento: 'Sobre crânios e crises'

Nos dias que nos esperam, teremos motivos, muitos, para sofrer e desfrutar

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #50 – Sábado, 2 de maio. Cena: Felizes 50 dias de confinamento!! Hip hip hurr não, pera.

Quem me vê festiva em algum dia normal pode não ver meu lado caracol, mas ele taí pelo menos desde que eu era criança e ganhei uma caveira de gesso do meu saudoso avô Waldemar, comprada na feira da Biquinha, em São Vicente. Eu pedi, vovô fez o agrado. Com cocada de coco queimado (vicentinos e santistas entenderão, pues cocada é amorrr).

Lembro que levei o presente pra casa e botei em lugar de honra com uma vela em cima, daquelas brancas compridas, guardadas na gaveta de talheres pra quando acabava a luz em casa (sempre quis ter também uma coruja, ainda não rolou).

pessoas em janelas
Aniol Yauci/Divulgação

E foi assim que comecei a escrever à luz da caveirinha Johnson (tem nome), metida no que em família a gente chamava de "quartinho de estudos". Era meu mundinho, naquela época ainda guardado (yeees) em cadernos e floppy disks de 1,44 Mb.

Eu faço parte da ala predominantemente introspectiva da humanidade. Adoro gentes, mas busco e preciso de boas doses da minha solidão pra criar, refletir, me equilibrar.

Desde o começo da quarentena, posso contar nos quatro dedos de uma mão as sessões de videochamadas de que participei. Ah: e nesse tempo todo vi zero lives de qualquer coisa. O lockdown me deu mais vontade ainda de me autoconfinar dentro do confinamento. Numa boa.

Claro, confraternizo em casa em doses homeopáticas. E mantenho contato com amigos, família. Sou humana, um bicho social. Mas o frenesi súbito dos mil inputs e conversas agendadas e happy hours virtuais quarentênicos me agonia. E faltam desculpas pra driblar um convite de videochat. Que que eu vou dizer? Olha, tô em casa o dia inteiro, mas não tô a fim?

Pois é exatamente o que tenho expressado (com amor y toda a sinceridade de que sou capaz), e o que vejo outros amigos dizerem também —mais e mais à medida que avançam os dias. "Estou cansada de tanto 'vermuteo' online", desabafou uma amiga outro dia numa mensagem. “Prefiro cuidar das minhas plantas.”

Seguindo o plano de desconfinamento anunciado nesta semana pelo governo espanhol, nos preparamos para voltar pouco a pouco às ruas. Com o fim próximo da quarentena, eu me sinto dizendo adiós a um período (socioeconomicamente: duro, surreal, inspirador, trágico, só-começando) pessoalmente muito rico em descobertas.

A socialização via internet & janelas múltiplas teceu um elo invisível entre as gentes confinadas. Em meio ao silêncio e distanciamento social, um material nos unia/une: a sensação de que todos somos solidários no vírus (parafraseando mal o poeta).

Nasceram projetos humanitários, poemas, ajudas, concertos de balcão, parabéns-pra-você dos vizinhos.

Ao mesmo tempo, com o encaixotamento, o Ser Introspectivo foi promovido a Sortudo ou Experto do momento. Dá um google em “introverts” e “coronavirus” pra vansmecê ver. Ou, se você se considerar introspectivo –bom, já tá sabendo.

Além de toneladas de memes, a internet pulula de artigos tipo "guia para um extrovertido sobreviver ao confinamento", "o que podemos aprender dos introvertidos durante o lockdown" etc.

Pura intriga da oposição. Sofrer nóis sofre tudo, de A a Z, por motivos práticos, econômicos, íntimos, hecatômbicos, terrenos ou extraterrenos. E desfrutar também está ao alcance.

Nos dias que nos esperam, teremos motivos, muitos, para ambas as coisas. Introspectivos, volitivos ou fofolitivos, estamos todos ávidos por finalmente sair à rua para passear, ver gente, estar entre gente.

Mesmo que a distância, com mil regras contestáveis ou dúbias, com abraços controlados e caras tapadas, seremos em breve uma nação de formiguinhas outra vez.

(O que, por sua vez, suscita zilhões de outras ponderações, mas é papo pra outro dia.)

E sofreremos: a se julgar pelo Plano de Estabilidade enviado pelo governo a Bruxelas na sexta-feira (1º), com perspectivas para a recuperação econômica espanhola pós-vírus, logo ali na esquina nos espera uma crise retumbante.

A previsão é de queda de 9% do PIB e uma taxa de desemprego de 19%, com perda de 2 milhões de empregos até o final de 2020.

Segundo a economista e vice-presidente Nádia Calviño, a recuperação total deverá acontecer em 2022. Ano do Tigre no horóscopo chinês. Até lá, espero poder visitar meu país, abraçar a minha gente —e recuperar o Johnson.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

DIÁRIO DE CONFINAMENTO

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