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Diário de confinamento: 'O fogo que nunca se apaga'

Na Espanha pós-Covid, as grandes festas populares não serão como antes

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #89 – Quarta, 10 de junho. Cena: a Catalunha anunciou hoje que recompensará profissionais de saúde com até 1.350 euros (R$ 7.635), conforme a categoria, por seu trabalho durante a pandemia.

Um ovo que baila entre flores, mulas que cospem fogo e procissão de bonecos gigantes com figuras históricas e lendárias: assim é o Corpus Christi em Barcelona.

Mas não neste ano. Excepcionalmente, devido ao estado de alarme, as tradicionais festas católicas-folclóricas, que começam nesta quinta (11) e vão até o domingo, acontecerão principalmente online.

Em Corpus pré-covídicos, zilhões de turistas costumavam se acotovelar para fotos diante das fontes de igrejas e monastérios da cidade, cobertas de flores, com o chafariz ligado —e um ovo oco dando saltos e piruetas sobre a coluna de água, para frisson das muitas crianças sempre presentes.

Restaurante na praia de Barceloneta em Barcelona durante o desconfinamento na Espanha
Restaurante na praia de Barceloneta em Barcelona durante o desconfinamento na Espanha - Pau Barrena - 30.mai.20/AFP

As teorias simbólicas-históricas sobre o tal ovo são muitas. Uma delas vincula esse curioso ritual aos jogos praticados antigamente em pátios interiores de casas muçulmanas; outras dizem que foi uma distração importada da nobreza napolitana.

E há quem associe o perfeito enigma volteante a cálices, hóstias, fertilidade e promessas de abundância.

Não sou católica nem outra-ólica, mas é de grande interessância popular meditativa-kitsch ver o ovo bailar —neste ano, online, com retrospectivas de anos anteriores e visitas virtuais a catedrais.

Outra tradição da época, as "catifas", ou tapetes de rua montados coletivamente entre famílias e vizinhos (feitos originalmente de flores e, hoje em dia, de serralho e desenhos elaborados), também foram suspensas e transformadas em atividades remotas, como concursos de pinturas e fotos.

Finalmente, ficarão para o ano que vem as procissões de Corpus Christi, mais ecumênicas-pagãs-mágicas que puramente católicas, que costumam juntar milhares de pessoas para ver “correfocs” (corridas de “diables” com fogos de artifício), bonecos gigantes (que sempre me lembram o Carnaval de Olinda) e figuras incendiárias do chamado "bestiário" barcelonês, como o dragão ou a mula (só de mulas, há mais de cem na cidade).

A primeira festa de "Corpus" de que se tem registro em Barcelona data de 1320, exatamente 700 anos atrás —uma das primeiras da Europa. A tradição do ovo que baila, ou "l'ou com balla" em catalão, existe pelo menos desde o século 15.

A Catalunha, como a Espanha inteira, tem uma sólida tradição de festas de rua, que costumam concentrar-se exatamente nesta época de bom tempo, entre a primavera e o início do outono.

Muitas dessas tradições são mantidas vivas por associações de bairros, que, por sinal, têm suas próprias festas "majores".

Outras se amparam na popularidade entre todas as faixas etárias e eclodem quase que espontaneamente em diversos pontos das cidades, como a festa da véspera de São João, celebrada no próximo dia 23 de junho.

Nessa data, espera-se que Barcelona já esteja vivendo a chamada fase 3 da desescalada, a última antes de embarcar na tal Nova Normalidade de que se tem falado tanto aqui.

Uma das maiores celebrações do ano na Espanha, a "verbena (véspera) de San Juan", que marca a noite mais curta do ano, também vai ser adaptada para tempos pós-Covid.

Neste ano, as fogueiras que costumam iluminar a cidade serão bastante controladas, e as praias de Barcelona —que em geral ficam superlotadas de famílias, jovens e turistas ao redor de fogueiras bailando, fazendo piquenique e soltando "petardos" (fogos de artifício)— permanecerão fechadas ao público.

Sim, o povo aqui, já deu pra perceber, é bem piromaníaco.

Nesta primeira grande festividade popular pós-pandemia na Catalunha, poderão reunir-se grupos de até 20 pessoas, e festas poderão comportar até 80 pessoas (em lugares fechados) ou 800 (em espaços abertos).

Em meio a toda essa precaução sanitária, uma tradição de inspiração pagã se manterá: a "flama (chama) del Canigó", que percorre toda a Catalunha pela mão de voluntários, irá acendendo fogueiras pelo caminho até chegar a Barcelona no dia 23 para repartir o fogo-que-nunca-se-apaga pela cidade.

Um ato de motivação coletiva especialmente significativo, num momento em que vamos nos desfragmentando em tantos sentidos.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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