Diário de confinamento: 'Come chocolates, pequena'

'Com 20 dias de isolamento domiciliar na Espanha, venda de doces, petiscos e bebidas alcoólicas dispara'

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #20 – Barcelona – Quinta, 2 de abril. Cena: comendo 79% mais chocolates que na semana passada e escrevendo uma musiquita que intitulei de “Ambulance”.

Está faltando endorfina entre a população espanhola.

"Óbvio", diria Trimagasi, o personagem icônico lazarento de "El Hoyo" ("O Poço"), filme que ainda resiste nos top 5 da Netflix na Espanha, e cujo bordão já virou meme generalizado por aqui.

Cheguei a essa conclusão contemplando as estatísticas sobre o carrinho de compras do cidadão durante a quarentena.

homem de roupas pretas e mascara branca, carrega sacola ver e está parado em frente a duas portas de ferro fechadas e pichadas. Em cima das portas, há placas com os dizeres: "I love Barcelona"
Homem de máscara fala ao telefone durante quarentena em Barcelona, na Espanha - Albert Gea - 18.mar.20/Reuters

Aqui, a busca por papel higiênico, o produto-estrela do neoconfinado, e outros artigos de cesta básica tipo macarrão e arroz caiu. Em compensação, disparou nos últimos dias a compra de itens endorfínicos tipo batata frita (87%), anchovas em conserva (cousa muy española, com 60%) e, principalmente, álcool. O espanhol médio está comprando 62,7% mais vinho e quase 78% mais cerveja em comparação ao princípio do confinamento domiciliar. Como disse algum representante de uma loja de vinhos online ao jornal El País, tá parecendo Natal.

Quem mora em Barcelona ou em Madri e tem pelo menos simpatia pelo mundinho indie-pop sabe o que é um vermute eletrônico ou um "brunch in the park" ou "in the city". Pois bien. As festas a céu aberto, que chegaram a reunir 85 mil pessoas nas últimas edições entre a primavera e o verão, já se microtransferiram para as videochamadas. Estamos todos fazendo isso —eu vejo o fenômeno em casa. "A gente se vê às 18h?" Na webcam coletiva. Com um copo na mão. Que dá a ilusão VR (Virtual Reality) de reunião/confraternização/vida-normal.

Ver a cara pixelizada dos entes queridos não é suficiente. Fulanis precisa beber um vermute pra relaxar ("fazer um vermute" aqui é quase o equivalente genérico do nosso "vamos tomar alguma coisa"). Comer doce, fazer bolo (a compra de farinha subiu estratosféricos 196%, gente). Gerar en.dor.fiiiiina.

Sim, a realidade está dramática. Os afortunados que podemos encher a cara de chocolate enquanto nos abrigamos no quentinho de um lar tocamos um castelo de visagens mediadas por olhos mágicos. As câmeras nas ruas fuçam onde nossos olhos não chegam, alimentam artificialmente o coração cidadão que ameaça saltar, parar, ter um treco no escurinho do cantinho do quartinho alado.

Em Madri, os sepultamentos e as cremações dobraram no mesmo período. Há filas de caixões fechados para despachar. As regras atuais permitem apenas a presença de até três pessoas por funeral. Os falecimentos por coronavírus inflaram as cifras totais de mortes na cidade em 41%.

Hoje, ademais, o país bateu um novo recorde: 10 mil mortos. Essa fixação geral com os números redondos, com a superação das médias, mesmo que negativa, é algo a se estudar. Digo eu. Um dia desses. Tomo nota no meu extenso checklist de quarentena, logo depois de "terminar-aquele-curso" e "escrever-um-livro".

Desde o início do confinamento, há apenas (uma eternidade, uma vida inteira!!) 20 dias, 834 mil pessoas perderam o emprego. Ou quase um milhão em pouco mais de duas semanas. Uma queda de 26% em comparação com o mesmo período de 2019. As exceções são os setores de agricultura (alta de 1,19%) e saúde (alta de 0,73%).

Óbvio.

Os especialistas já falam em uma "meseta" de estabilização antes que comece a queda da curva de contágios. Ainda que o número absoluto de mortes de hoje seja o mais alto registrado desde o início da crise (950 nas últimas 24 horas, o segundo mais dramático até o momento no mundo), acredita-se na tendência à redução por conta do baile de números —quanto mais casos detectados, menor tende a ser a proporção total de mortos. Hummm.

Acho que preciso de um vinho.

"Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada."

(trecho de "Tabacaria", de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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