Diário de confinamento: 'Espanha testará 30 mil famílias'

Amostragem epidemiológica nacional será parte fundamental da segunda etapa do confinamento

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #25 – Barcelona – Terça, 7 de abril. Cena: Tenho que checar duas vezes que dia é hoje.

Num apartamento qualquer com orquídeas em flor na parte xis de Barcelona, um jovem Chet Baker canta “It could happeeen to yooouuuu” com voz cristalina de 1958.

A Espanha amanheceu com um aumento de 16,6% no número de mortos: 743 nas últimas 24 horas.

Segundo fontes oficiais, o dado não altera a tendência à desescalada dos últimos dias e se explica em parte pelo "efeito fim de semana" —um acúmulo de casos não-notificados de sábado e domingo.

Cachorro na varanda durante a quarentena em Ronda, na Espanha
Cachorro na varanda durante a quarentena em Ronda, na Espanha - Jon Nazca/Reuters

O governo estuda agora lançar um conjunto de regras para os positivos assintomáticos, que serão convidados a passar sua quarentena em estabelecimentos cadastrados, como hoteis e hospitais de campanha.

O debate gira em torno da obrigação ou não do confinamento não-domiciliar. A ideia é que seja voluntário e privilegie os casos de pessoas que não possam se isolar em casa. Cerca de 30 mil testes serão distribuídos para ampliar a identificação de contágios em âmbito nacional.

Sobre se isolar em casa, falar é fácil. Outro dia, com sintomas leves de resfriado, e sem poder fazer o teste, reservado aos pacientes graves, fui orientada por uma jovem médica de um centro de saúde próximo de casa a isolar-me preventivamente por pelo menos duas semanas dentro de casa.

Detalhe: em nosso apê, há apenas um banheiro, como a maioria dos lares barceloneses, por sinal.

"O ideal é que você se mantenha o máximo possível em um quarto exclusivo e tenha um banheiro só para você", disse a supracitada, observando-me detrás de seus oclinhos de aro negro e cachos de cabelo desgrenhado saindo da touca. Tá bom. Estava havia dez horas de plantão.

O Código Penal espanhol diz que se pode condenar legalmente uma pessoa por contaminar "voluntariamente" por aí. Mas como forçar os que não queiram deixar seu lar para se confinar em algum cantinho dessas tais "Arcas de Noé" que está buscando o governo?

E, aliás, como estimular o povo a fazer testes, se está todo mundo metido em casa?

Em Madri, 200 mil testes novos distribuídos neste fim de semana serão utilizados para detectar positivos entre as forças públicas (policiais, bombeiros, militares), profissionais de saúde, população de risco (pacientes oncológicos, por exemplo) e idosos.

As tais "Arcas de Noé", utilizadas na China, por exemplo, são citadas como parte importante do processo de desescalada da crise aqui na Espanha.

A estratégia de amostragem epidemiológica nacional do governo espanhol nessa etapa será assim: 62.400 pessoas farão o teste rápido, uma em cada núcleo familiar ou de convívio. Isso corresponderá, estima-se, a umas 30 mil famílias. A participação será voluntária.

Se der negativo, será realizado o PCR, o tal teste completo super-fiável. O check-up será repetido depois de 21 dias, considerando que no período inicial de incubação (seis primeiros dias) o vírus pode não ser detectado. Hmmm.

O Ministério da Saúde calcula que mais de 80% dos casos atuais podem estar escondidos em nossas casas. Ou seja: ao invés dos 140.510 casos oficiais de hoje, poderíamos em realidade ter até 700 mil. E, para muitos especialistas, ainda parece pouco.

Com os dados amostrais em mãos, serão tomadas decisões sobre o processo da tal Volta à Normalidade.

Enquanto isso, em Barcelona, três amigos confinados lançaram o primeiro museu virtual de "arte Covid", como eles mesmos chamaram. A conta de Instagram @CovidArtMuseum já tem mais de 6.000 seguidores em menos de três semanas e recebe até 50 obras por dia de todo o mundo.

Pra participar, basta mandar um e-mail para covidartmuseum@gmail.com ou uma mensagem direta via IG, etiquetar a página numa publicação ou usar a hashtag #covidart.

Além de manipulações de obras de arte conhecidas (Gioconda abraçando rolos de papel higiênico, "A Criação de Adão", de Michelangelo, com as famosas mãozinhas apertando um tubo de álcool em gel, personagens de Lichtenstein beijando-se com máscaras etc), o @CovidArtMuseum mostra criações próprias de Seres Confinados com fotos, colagens e desenhos. O tema está aí (infelizmente) para todos. Hora de se inspirar. Chet segue cantando, eternidade afora:

“Keep an eye on spring,

Run when church bells ring,

It could happen to you”

(“It Could Happen To You”, de Jimmy Van Heusen e Johnny Burke, 1943).

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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